“As long as it is black” – Henry Ford, 1913.

Gostaria de dividir algumas questões ainda sobre o livro “As Long as it’s Pink” de Penny Sparke.

No capítulo 6 “The Selling Value of Art: Women and the Moderne”, Sparke explica que no período entre guerras nos EUA, o pensamento por detrás da publicidade, era essencialmente feminino, no esforço de penetrar no psicológico das mulheres. As estratégias publicitárias alinharam-se com as ideias de Thorstein Veblen (1857 – 1929) incentivando as mulheres de todas as classes a participar do mundo do luxo. A democratização do luxo era um paradoxo que cabia aos publicitários resolvê-lo, ou escondê-lo. Uma forma simples de associar os produtos com a noção de moda e tendências era utilizar-se das cores,  que a autora menciona como “flavour of the month” (SPARKE, 2010. P. 90). As cores foram amplamente utilizadas, desde pequenos objetos aos armários de cozinhas na década de 1920, e eram compreendidas como uma ferramenta de venda.

Mais adiante nesse mesmo capítulo, a autora lembra que antes da década de 1920, as fábricas trabalhavam em menor escala e adaptavam seus produtos de acordo com as exigências simbólicas dos consumidores e aos ambientes para os quais eram destinados, gerando assim uma maior diversidade estética, inclusive de cores dos produtos. Porém a autora observa que, dentro do conceito de produção em massa fordista esta abordagem flexível não era mais possível, dado o nível de racionalização necessária para fazer desse modelo um fórmula de produção viável.

 In Henry Ford’s famous phrase, Ford costumers could have their car any colour

as long as it is black. Product standardization, as a result became increasingly the norm.”

(SPARKE, 2010. P. 93.)

TModel launch Geelong.jpg

Apesar da fala acima de Henry Ford, a feminização dos bens de consumo, nos EUA, começou com o objeto mais simbolicamente masculino, o próprio automóvel. A publicidade já se apoiava nas cores dos produtos para conferir valores, uma vez que, de acordo com Sparke, esses produtos não eram mais reconhecidos simplesmente em função de seu desempenho, seu preço, ou suas qualidades de economia de trabalho ou de melhoria de higiene. Ao final da década 1920, os produtos falavam cada vez mais para si mesmos, articulando uma sofisticada linguagem simbólica que procurava adentrar no subconsciente dos compradores de diferentes maneiras. Em 1923 a Chevrolet introduziu cores no Modelo Superior, uma pequena mudança que teve uma enorme repercussão, como explica Sparke: “This small but enormously significant decision marked the moment at which American automobile design, rapidly followed by product design in general, acknowledged the need to recognize beauty as well as utility. Soon colour was joined by a consideration of line and form as well .” (SPARKE, 2010. P. 93.)

Assim, logo após Henry Ford dizer que seus carros poderiam ser da cor que o consumidor desejasse as long as it is black, seus concorrentes, bem como demais fabricantes, compreendendo o mercado da época (e da era que se iniciava) introduziram produtos em diversa cores “as long as it is sold.”  [ frase minha, rs]

 

Estou terminando de escrever um artigo sobre minhas considerações gerais sobre este livro de Penny Sparke. Logo que for publicado colocarei um link aqui.

Por favor, deixem seus comentários!! 😉

Abraços,

Fanny


 

Fonte das imagens:

Model T, Ford (1913): http://pt.wikipedia.org/wiki/Ford_Model_T

Buick Master, Chevrolet (1923): http://en.wikipedia.org/wiki/Chevrolet_Superior

 

Leitura Penny Sparke: “As long as it’s pink”

O livro da professora historiadora inglesa Penny Sparke, parte da minha bibliografia fundamental, está tornando minhas longas e solitárias horas de leituras (que a princípio achei que seriam horas penosas por ser uma complexa leitura em inglês) muito interessantes e esclarecedoras. Com certeza será uma valiosa contribuição para minha tese.

Em “As long as it’s pink: the sexual politics of taste” que foi publicado pela primeira vez em 1995 e reeditado em 2010, a autora apresenta uma nova versão da história da moderna cultura material abordando as relações como produção e consumo; gosto e estilo; esfera pública e privada, sob a ótica das relações de gênero.

 “Very little scholarly writing on consumption has addressed the question of feminine or seen it as part of the boarder discussion about gender politics. […] While some have perpetuated th idea that women’s role in this way entirely passive, others have offered a more positive view of feminine taste, seeing it as operating the value judgments imposed on it by masculine culture.” (SPARKE 2010, p. xxiii)

Vale ainda citar outros livros de Penny Sparke dentro dessa mesma linha de pesquisa (livros que já estão na minha estante) que ela desenvolve na FADA – Faculty of Art, Design & Architecture na Kingston University of London:

McKellar, Susie and Sparke, Penny, eds. (2004) Interior design and identity.Manchester, UK : Manchester University Press. 218p. ISBN 071906729

Sparke, Penny (2008) The modern interior. London, U.K. : Reaktion Books. 240p. ISBN 9781861893727

Sparke, Penny (1995) As long as it’s pink: the sexual politics of taste. London, U.K. : Pandora. 275p. ISBN 0044409230

Outros pesquisadores e eu, é claro, estamos aguardando que livros como esses sejam editados no Brasil.

Abraço,

Fanny

 

Artigos, reportagens, textos… Gênero!

O interessante de estudar relações de gênero é que muitas pessoas me encaminham artigos relacionados ao assunto.

Seguem alguns que recebi ultimamente, que tratam de mulheres na Arquitetura, cientistas e acadêmicas:

“As 10 mulheres mais negligenciadas na história da Arquitetura” > do Archdaily.com

“Six Women Who Changed Science. And The World” > Quadros feitos para celebrar mulheres cientistas que realizaram (ou participaram) de grandes avanços na ciências, parece que agora já expandiram essa seleção inicial de 6 acadêmicas.

“Temos que para de descrever os espaços como ‘masculinos’ ou ‘femininos'” > Esse artigo tenta explicar que essa conotação de gênero dos espaços apresentam antigos preconceitos.

“Entrevista com Julia King – arquiteta do futuro” > A entrevista relata os trabalhgos e as premiações dessa arquiteta britânica – do Archdaily.com.br

“Vamos ler mais mulheres acadêmicas?” > Mulheres leem mais que homens, porém autores (homens) publicam mais que autoras… entenda essa dinâmica.

Boas leituras!!

Abraço,

Fanny

Notícias sobre gênero

“Porque a arquitetura tem que ouvir suas mulheres esquecidas”

“As mulheres são os fantasmas da arquitetura moderna, sempre presentes, cruciais, mas estranhamente invisíveis”, escreveu a historiadora Beatriz Colomina em “With, Or Without You”, ensaio do catálogo de 2010 do museu de Arte Moderna: Modern Women. “A arquitetura é altamente colaborativa, mais como a cinematografia do que a arte visual, por exemplo. Mas ao contrário dos filmes, isto é raramente reconhecido”.

Colomina prossegue, registrando a história das mulheres esquecidas do modernismo, reconhecidas, quando muito, por ter trabalhado “com” Mies van der Rohe, Le Corbusier, Alvar Aalto, ou Charles Eames. Para se colocar no lugar de Lilly Reich, Charlotte Perriand, e Aino Aalto, simplesmente assista o casal Eames no Home Show em 1956, quando Ray é apresentada indignamente como a “mulher hábil por trás de Charles”, que entra após ele gracejar com a apresentadora Arlene Francis….

Texto completo: http://www.archdaily.com.br/br/01-134611/porque-a-arquitetura-tem-que-ouvir-suas-mulheres-esquecidas

 

Leituras gênero

Para começar a compreender melhor os estudos de gênero li o livro “Gênero: conceitos-chave em filosofia” de Tina Chanter.

Algumas passagens e análises da autora me fizeram pensar bastante, por isso gostaria de compartilhar aqui:

As propagandas são supostamente dirigidas para a individualidade, quando de fato promovem uma norma estereotípica. Tornamo-nos servas obedientes a normas patriarcais da beleza feminina, pois treinamos nossos corpos dóceis de acordo com as últimas técnicas da moda. Houve uma exploração de programas de TV centrados na realidade, como Queer eye for the straight guy, What not to wear […]. As mulheres são estimuladas a usarem salto alto, são treinadas para que apliquem maquiagem do jeito certo, são destruídas emocionalmente, com frequência a ponto de chegarem às lágrimas, até que percebam o quanto estiveram erradas e estejam prontas para serem novamente iluminadas, reconstruídas e ganharem nova forma, como receptáculos coniventes da moda, em cujos corpos é inscrita a mensagem da sexualidade patiarcal, heterrosexual e normativa.” p. 68

Outro ponto que me chamou atenção foi a quantidade de menções que Chanter fez aos textos de Simone de Beauvoir.  Assim já estou imersa na leitura de “O Segundo Sexto” (1949), que no Brasil a publicação foi feita em duas partes. Estou ainda na primeira parte: “Fatos e Mitos”.

No trecho abaixo Beauvoir está tratando da questão das mulheres nunca terem reclamados para si a posição de sujeito, permanecendo sempre na condição de “Outro’, ou contrário dos proletários e negros que se autodenominam ‘nós’ dando aos demais a condição de ‘Outros’:

Vivem dispersas [as mulheres] entre os homens, ligadas pelo habitat, pelo trabalho, pelos interesses econômicos, pela condição social a certos homens — pai ou marido — mais estreitamente do que as outras mulheres. Burguesas, são solidárias dos burgueses
e não das mulheres proletárias; brancas, dos homens brancos e não das mulheres pretas. O proletariado poderia propor-se o trucidamento da classe dirigente; um judeu, um negro fanático poderiam sonhar com possuir o segredo da bomba atômica e
constituir uma humanidade inteiramente judaica ou inteiramente negra: mas mesmo em sonho a mulher não pode exterminar os homens. O laço que a une a seus opressores não é comparável a nenhum outro. A divisão dos sexos é, com efeito, um dado biológico e não um momento da história humana.” P. 13 (grifo meu)

Ao terminar a leitura de Simone de Beauvoir iniciarei “As long as it’s pink: the sexual politics of taste” de Penny Sparke.

Em breve trarei mais questões “para refletir”… rs

Abraço,

Fanny

Grupo de Estudos

Recente organizei um grupo de estudos com alunos da graduação dos cursos de Arquitetura e Design de Interiores da FIAM-FAAM, onde leciono. Ao todo são 9 alunos que estão desenvolvendo trabalhos de Iniciação Científica em temas correlatos à minha pesquisa de doutorado.

Semanalmente nos reunimos para debates sobre os temas estudos e as leituras sugeridas, e também trocamos informações sobre as atividades individuais das pesquisas de cada um.

Essa é uma experiência nova para mim como professora e orientadora, mas há anos participo como colaboradora em grupos de pesquisa na Universidade Presbiteriana Mackenzie o que me auxiliou bastante para conseguir tocar essa nova empreitada.

As atividades desse grupo de estudos e o andamento das pesquisas dos alunos podem ser acompanhados pelo blog: http://grupodeestudosarquitetura.wordpress.com/

Abraços,

Fanny

Arquitetas na mídia

Essa semana saiu uma notícia no Arch Daily sobre  5 mulheres que estão mudando a cara da arquitetura.

A notícia é sobre o documentário Making Spaces que está em fase de finalização, mas precisa de ajuda financeira.

Fiquei contente em ver que esse assunto está  “na moda”!

Nas palavras das próprias produtoras do documentário, ao serem perguntadas sobre as razões de fazer esse filme:

” Abrir portas! […] Abrir portas para as mulheres serem reconhecidas, […] abrir portas para estudar o que está acontecendo na arquitetura contemporânea…”

Vejam uma breve introdução ao filme: http://www.kickstarter.com/projects/243381206/making-space-5-women-changing-the-face-of-architec

“For the first time in history, women are designing our world.  MAKING SPACE will also be a first:  a full-length documentary film about the women who are changing our environment.  How have they made it to the top in a male-dominated field?  What is the nature of their creative process?  Are there gender differences in architectural design? What is new in contemporary architecture? 

After conducting interviews around the globe, five outstanding architects were selected:  Annabelle Selldorf (New York), Farshid Moussavi (London), Odile Decq (Paris), Marianne McKenna (Toronto) and Kathryn Gustafson (Seattle, Wash.DC and London).”

Então parece que esse filme será uma grande contribuição aos meus estudos! Assim, aguardo ansiosa para sua estreia!

Abraços,

Fanny